eu nem vi.

porque não transamos qualquer coisa?
se sentiu vontade de pensar
e eu de fazer safadezas
dança dos olhares?
prazeres comuns?
oportunidade da cantada que pode acontecer sutilmente?
olha, as pessoas andam transando por aí
mas eu preciso de ritmo
preciso de balanço, preciso do cheiro
por isso, não espero
e não quero que se lembre
pra mim tanto faz
não se pode esperar
não se pode descuidar.

 

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o que não existe é tempo pra sofrer.

Ele arrumava meu cabelo de manhã, me levava para a escola, comia meu lanche no caminho e me buscava antes do almoço.  Os dias eram sempre os mesmos, chegando em casa meu avô estava lá esperando com o almoço pronto, “a louça é sua” os dois gritavam.

Eu sempre fui apaixonada por ele. Sempre foi meu orgulho, minha razão para seguir, em todos os momentos era nele que eu pensava. Era por ele que eu acordava cedo, deixava o toddy dele pronto, fazia pão na chapa e queimava o dedo. Ia para escola e ficava me gabando, afinal, eu tinha o amor mais lindo e verdadeiro do universo.

Pra ele meu amor, minha dor, meu sorriso e minhas lágrimas de crocodilo quando queria um favor. Tipo grana, e claro, era por isso que eu sempre lavava a louça. Afinal, uma mão lava a outra.

Passava a roupa dele com a maior delicadeza de quem quer acabar logo e brincar no quintal, com a inchada do avô fingindo ser da roça. 

Uma vez derrubei ele da laje, ele pediu uma coisa, eu joguei e o idiota pulou para frente e caiu. Eu ri, corri e acabei presa por 3h dentro do banheiro, se não fosse a vontade do meu avô de fazer xixi, podia estar lá até hoje.

Engraçado como o amor transforma a gente, até meus 5 anos eu era palmeirense, depois ele me convenceu e até hoje sou corinthiana roxa!

Eu sempre fui completamente apaixonada pelo meu irmão, e que se dane se ele fez um monte de merda na vida, que se dane mesmo. Todo mundo erra, todo mundo faz merda, mas não deixam de ser felizes. E ele sempre foi, do modo dele, no tempo dele e da forma que ele escolheu ser. 

Que se dane se as pessoas falam dele, só eu sei o que foi me desfazer de algo tão bom. Eu tenho a impressão que as pessoas não conheciam meu irmão como eu, dentro de casa, com suas dores, com seus olhares distantes, sofrendo por amor, sofrendo por não ter tido um filho ainda, por ter perdido meu avô e por fazer parte de um mundo todo quadrado.

Ele sempre escondeu de mim que usava substâncias não aprovadas pela sociedade “moderna antiquada”, mas eu sabia, sempre soube e nunca julguei meu irmão por isso. Eu sacava o olhar distante e o medo de viver do modo convencional que ele tinha. E por mais que as pessoas não acreditem meu irmão era puro de alma e de coração, não há uma pessoa que eu conheça que não goste dele e do que ele representou no mundo.

Adorador de criança, fofoqueiro nato, colocava apelido ruim até em cachorro, vivia intensamente e não atrapalhava a vida de ninguém, e o melhor, era feliz! Tinha o mundo em suas mãos.

No dia que ele se foi senti uma solidão imensa, era como se tivessem tirado meu ar. Fui tomada por um amor que enfim consegui sentir. Eu era de novo aquela menina de 7 anos pendurada no pescoço dele pedindo para sair com ele e dar uma volta no bairro. Eu era de novo a irmã mais nova que entrou na faculdade, escreveu um texto para o diário oficial do município e depois de entregar o impresso em suas mãos todo o bairro soube que eu era finalmente uma jornalista com algo registrado.

No dia que ele resolveu ir embora, eu pensei “o filho da puta fodeu a minha vida, como será agora?”, eu estudei 4 anos para trabalhar e viver pra ele, pra cuidar dele, o plano era esse e ele não entendeu. 

Depois de um tempo consegui escrever e entender o que houve, mas pra mim não importa, a maior herança deixada pelo meu irmão foi sua felicidade e o modo livre que ele vivia. Foi sua coragem de viver sem pensar no que as pessoas falavam, sem se privar de ser o que era, sem medo. Ele foi um laço amarrado no coração, que ainda está lá, bem mais apertado que antes, bem mais firme.

O meu irmão, meus caros, sempre foi e sempre será o grande amor da minha vida. Eu sinto tanta falta dele, mas agora entendo…

É a vida, meus caros…

algumas.

Ela ouve novos baianos
como se não houvesse
um tal amanhecer.

saudade de compartilhar felicidade
com ele.

desapego
ou talvez
desemprego.

é macumba, só pode ser
se não for eu mesma vou fazer
vou sambar naquela roda
com uma rosa na cabeça para enfeitar
e os pés descalços pra lutar!

Você desce a rua que passou boa parte da infância, a rua onde seu tio querido tinha uma barbearia toda linda e azul. Hoje ela esta fechada, sem vida, sem o clipe dos titãs, sem o tio Toninho. Você para compra uma revista na banca da frente e pergunta ao jornaleiro:

– o senhor conhecia o seu Antônio?
– Ele me faz tanta falta, não converso com mais ninguém. Era praticamente da família.

Acabamos por chorar juntos, ele me deu a revista e eu R$ 9,90. Mesmo assim prometi que amanhã passo aqui para conversar sobre o Palmeiras.

Saudade, tio Toninho.

texto opcional.

eu acho que não é amor de fato.
eu acho que querer estar.
eu acho que pode, mas não acho justo.
mas talvez seja amor sim.
se não for já foi.
não há uma necessidade de estar junto.
há necessidade de viver junto, mas de lados opostos.
complexo, mas verdadeiro.
não precisa olhar.
não precisa ficar aqui.
senta ai na guia e sente o cheio, daquilo que mais gosta.

tenho certeza que as coisas mudarão, a história inverteu e será diferente. 

#vemnimim2013

#SPpedePAZ

Eu acho que compartilhar esse texto do Thiago Borges é mais do que um manifesto e indignação e revolta, estamos assustados, Governador. Não se pode ir ao trabalho ou a escola sem pensar que pode ser morto no caminho ou queimado dentro de um ônibus. Também moro na periferia e nunca tive medo de andar na minha rua e de viver por lá.

Segue a carta do Thiago, uma carta linda e expressa a dor de um amigo indignado e triste. Isso aconteceu hoje às 10h, em plena luz do dia.

Pessoal, alguma coisa precisa ser feita, e rápido.

#SPpedePAZ

 

Esta é uma carta de dor e, principalmente, de indignação.

Conheci o Renato há uns 15 anos. Tínhamos a mesma idade. Estudamos juntos desde o primário em uma escola aqui no Grajaú, que já foi considerada a pior do estado de São Paulo. Rimos, zoamos, discutimos, terminamos o colegial. As vidas seguiram rumos diferentes, ficamos sem nos ver por um tempo e retomamos contato há quase dois anos. Muita coisa tinha mudado, mas ao mesmo tempo tudo continou igual, entende?

Renato curtia samba e cerveja. Quando a gente ia num pagode ou em qualquer outro lugar aqui do Graja, ele era parado por algum conhecido. Ele conhecia muita gente, conversava com todo mundo. O apelido da época de escola, “Cebola”, pegou e todos o chamavam assim.

Ele trampava fazendo entrega do Sedex. Na última sexta, dia 9 de novembro, antes de ir trabalhar, ele pretendia comprar um tênis numa loja da avenida Belmira Marin. Ia voltar rápido para almoçar, pegar a marmita preparada pela avó e vazar para o trampo à tarde. No meio do caminho, porém, os planos dele foram interrompidos.

Eram 10 horas da manhã. Renato passava em frente ao pronto socorro Maria Antonieta, o único para os 500.000 moradores do distrito do Grajaú (fora as redondezas), quando dois homens em cima de uma moto passaram atirando para acertar um policial que estava no mesmo local. O PM foi atingido, mas sobreviveu. Renato levou um tiro no peito, foi socorrido na hora, mas não resistiu.

O tiro que matou meu amigo saiu da arma dos criminosos, mas muita gente apertou o gatilho.

Ainda que o governador, o secretário de segurança e demais autoridades que estão enclausuradas em seus castelos no centro expandido se recusem a admitir, estamos sim vivendo uma guerra. É visível que o tal um acordo selado em 2006, que garantiu alguns anos de “paz” às periferias, foi quebrado. O acerto de contas acontece nas ruas, todos estamos vendo. De um lado, os bandidos executam covardemente os PMs, que revidam atirando em quem encontram pela frente.

Não vou repetir aqui os Datenas da vida dizem, que bandido assassino merece pena de morte. Assim como não vou repetir o que alguns ativistas falam, que a polícia é cruel e mata sem dó. Cada um está de um lado, todos têm culpa, mas tanto um quanto o outro é vítima do abandono.

Não são os amigos ou familiares do governador ou da presidenta que estão morrendo; nem do secretário ou dos comandantes da polícia; e nem dos chefões do crime organizado. Quem morre nessa guerra são os pobres – seja o soldado da PM, que vive na miséria; seja o bandido, que entrou no crime fugindo da miséria. E, na linha de fogo, estamos eu, você, o Renato.

A violência tem mão dupla e é consequência do descaso. Não temos escolas, saúde, emprego perto de casa, transporte digno nem opções de lazer. Acha mesmo que ter a Rota nas ruas vai resolver o problema? Isso vai apenas intensificar os conflitos.

Como cidadãos, também temos culpa disso. Não enxergamos – ou não queremos enxergar – o que está acontecendo ao nosso redor. Concordamos com especialistas em segurança e jornalistas que nunca colocaram o pé na favela quando eles botam caras muito parecidas com as nossas na TV e julgam antes da justiça. Ou quando falam dos PMs que mataram ou morreram. Você não se reconhece nesses rostos? Eles são iguais aos nossos. E por sermos iguais, também nos tornamos alvo e entramos para as estatísticas. Isso é genocídio do povo pobre das periferias.

Não dá pra depender das autoridades públicas, muito menos da imprensa. Segundo notícia publicada no R7, que utilizou informações da polícia, o Renato foi assassinado enquanto tentava roubar uma motocicleta. Quando eu cheguei ao pronto socorro, vi os abutres da Record gravando uma passagem ali. Permaneceram dez minutos no local, não falaram com ninguém e foram embora. Fica a versão deles.

Por tudo que aconteceu, sinto uma dor que não cabe em mim e que me faz querer gritar. E isso só aumenta quando vejo esse tipo de coisa.

Como jornalista e morador de um bairro periférico, sei bem que tem muita coisa boa acontecendo na quebrada. Há mais de 9.000 coletivos culturais em ação, entre saraus, shows, peças de teatro, espetáculos de dança, rodas de samba, entre outras manifestações que envolvem milhares de pessoas. Mas não interessa à grande mídia dar destaque a isso.

Como amigo do Renato, minha responsabilidade aumenta ainda mais. Por isso, escrevi esse texto, que é a única arma que tenho para lutar. E vou continuar escrevendo, não só para falar disso mas para destacar as batalhas travadas por outros moradores das quebradas para transformar nossa realidade.

Como cidadãos no meio do fogo cruzado, podemos optar entre nos recolher em nossas casas com nossa indignação; ou entrar nessa guerra com as armas que temos.

Somos 8,5 milhões de pessoas nas periferias de São Paulo – dois terços da população da cidade. Devemos continuar nos indignando com o que está acontecendo, mas fazer algo além de lamentar.

De forma independente, estou juntando informações sobre resistências pacíficas (como as ações dos coletivo culturais) que estão acontecendo nas periferias. Você pode curtir esse texto, comentar e compartilhar. Mais do que isso, pode contribuir com informações. De que forma você, seus amigos, parentes e vizinhos estão resistindo a essa guerra? Vamos ocupar todos os espaços e mostrar quem é que manda nessa porra!

Que o Renato e as demais vítimas dessa guerra descansem em paz. E que a gente, enquanto estiver por aqui, nunca descanse até que isso mude!

eu penso e sou.

Divagações alheias e difusas.

 

.ele acabou sacando
eu sofro de um tipo de
esquizofrenia aguda
ou é desatenção pragmática,
ainda não sei,
ai ele começou a acertar na condução
mas no fundo acho que é saudade daquelas.

 

.a palavra não existe
mas definitivamente
sou uma pessoa queredora.

 

.passou a tarde atrás de companhia para o samba e deu de cara com a desilusão.

 

.vem pra roda, nego, vem sambar
já cheguei e vou colocar a saia pra rodar
vem pra roda, nego, chega pra cá
vem.

 

.o fim.

Impressões sobre o Coletivo Imargem!

Escrevo de quando em quando, quando dá!

Vou usar meu espaço para divulgar o espaço de outras pessoas queridas, pessoas que entraram na minha vida para trazer o novo e inspirar.

Agradeço ao Imargem a oportunidade de ajudar, de ser, de aprender, de estar, de marcar, enfim…

E para você entender o que significa o Imargem, lá vai…

O Projeto Imargem é uma intervenção multidisciplinar que, reunindo arte, meio ambiente e convivência, pretende enfrentar o isolamento das comunidades que vivem às margens da Represa Billings, região do Grajaú, São Paulo. Entende-se, no Imargem, a arte como instrumento potente de expressão e interlocução; a convivência como mecanismo de explicitação de interesses, de construção de consensos e de enfrentamento dos preconceitos e o meio ambiente como o resultado da relação conflituosa entre a ocupação humana desordenada e as paisagens da cidade. As ações implementadas pelo Imargem visam ampliar os olhares e aguçar as sensibilidades de todos (educadores e participantes) para o espaço urbano. Espaço entendido como a paisagem povoada. Essas ações são organizadas tendo em conta a paisagem local – isolamento dos bairros, desassistência por parte do poder público e área de preservação ambiental. O cenário, a interlocução com os moradores dos bairros e a consciência do coletivo que compõe o Projeto Imargem na potência da arte, foram delineando a metodologia de intervenção.

É isso!
A foto foi feita pelo Túlio, da Casa do Rosário no dia da inauguração do espaço de arte mais lindo da zona sul. Na foto EuMauroTimHelder e Rodrigo Santos